ASG nas Gestoras: o que o mercado e os reguladores esperam?

Saiba quais os principais requisitos para ações ASG e como transformar discurso em prática
ASG nas Gestoras de Recursos Compliance e Riscos

A agenda ASG deixou há muito de ser apenas uma tendência ou uma vantagem competitiva opcional. Em 2025, ela é reconhecida como fonte de valor e proteção, parte estrutural da atuação das Gestoras e integrada tanto à regulação quanto às expectativas dos investidores.

Com essa crescente, a pressão por transparência, métricas confiáveis e atividades sustentáveis coerentes também se intensificou, impulsionada pela CVM, pela ANBIMA e por clientes que buscam governança sólida e impacto mensurável das práticas ASG.

Nesse cenário, compreender o que o mercado e os reguladores esperam tornou-se indispensável para qualquer Gestora. Mas, afinal, o que os órgãos reguladores e o próprio mercado querem ver das empresas em termos de ASG? E como transformar discurso em prática?

Neste artigo, analisamos as ações ASG, de que forma gerar valor e mitigar riscos e quais são essas expectativas em relação às Gestoras.

Qual a importância das práticas ASG?

Nos últimos anos, o ASG deixou de ser “tendência” e passou a ser parte estrutural do negócio. Afinal, investidores, reguladores e a sociedade como um todo esperam que as Gestoras assumam responsabilidades ambientais, sociais e de governança de forma concreta, não somente no discurso. 

A Pesquisa ANBIMA de Sustentabilidade de 2022 mostra que 67% das Gestoras brasileiras ainda estavam no início da adoção de critérios ASG, mas 90% delas acreditavam que o tema ganharia relevância nos próximos anos, o que realmente reflete essa mudança de postura nos dias de hoje.

Por exemplo, participantes do mercado valorizam cada vez mais a imagem e reputação das instituições com que se relacionam. Casos de descuido com corrupção ou degradação ambiental podem destruir a credibilidade empresarial rapidamente. 

Além disso, a evolução regulatória confirma esse status prioritário. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e órgãos autorreguladores, como a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), têm implementado normas específicas de disclosure ESG (ASG, na sigla em inglês). 

Algumas dessas diretrizes exigem que empresas e fundos reportem informações sobre questões climáticas, diversidade e outros indicadores ASG. Ao mesmo tempo, investidores institucionais globais, como fundos de pensão e soberanos, pressionam as Gestoras e outras empresas relacionadas do setor a considerarem esses fatores em suas estratégias. 

A sociedade civil também está mais atenta. Consumidores e a opinião pública esperam que o setor financeiro e de capitais contribuam para soluções sustentáveis e de responsabilidade social, não apenas para o lucro em si. 

Em suma, as ações de ASG tornaram-se parte integrante das expectativas do mercado e da regulação e sinalizam uma mudança estrutural na forma de gerir recursos. 

Como ASG gera valor e reduz riscos?

Durante muito tempo, sustentabilidade, governança e responsabilidade social foram vistas como custo extra ou estratégia de marketing. Atualmente, a perspectiva é outra: o ASG bem implementado representa a gestão eficaz de riscos somada a oportunidades.

Portfólios que integram fatores ESG tendem a performar acima daqueles geridos apenas com análise financeira tradicional, pois apresentam mais resiliência em crises e menores riscos associados. 

Essa situação se deve ao fato de que considerar esses aspectos fornece uma camada extra de avaliação de riscos e oportunidades, o que evita exposições a empresas com práticas insustentáveis ou problemas éticos que possam resultar em prejuízos futuros.

Importante destacar que sustentabilidade virou um pilar técnico, não apenas discursivo. Para sustentar o valor criado, as Gestoras precisam de métricas e evidências concretas, como, por exemplo:

  • indicadores de impacto (emissões evitadas, diversidade, qualidade de governança);
  • métricas acompanhadas com frequência; e
  • processos de diligência e monitoramento documentados.

Cultura, vantagem competitiva e ASG consistente

Quando o compromisso com sustentabilidade faz parte do DNA da organização, há uma integração entre propósito, discurso e prática que gera diversos benefícios. 

Primeiro, essa coerência interna minimiza riscos reputacionais. A gestora “pratica o que prega”. Caso contrário, colaboradores, investidores e o mercado rapidamente percebem a dissonância. 

Além disso, um programa ASG sólido fortalece a cultura organizacional. Líderes que incorporam valores de sustentabilidade e ética no dia a dia inspiram suas equipes a fazer o mesmo. Os colaboradores tornam-se mais engajados ao sentir que trabalham em um ambiente positivo e responsável, o que eleva a motivação e a produtividade. 

Práticas como programas de diversidade e inclusão, desenvolvimento de talentos e transparência na gestão contribuem para reter profissionais qualificados e inovadores. Ou seja, o ASG consistente também pode funcionar como um imã de talentos.

Outro diferencial é a resiliência diante de mudanças políticas, econômicas e regulatórias. Empresas com forte governança ASG costumam ter melhor capacidade de adaptação. Por exemplo, Gestoras que incorporam critérios socioambientais em seus processos decisórios já possuem compliance estruturado para atender novas leis ou padrões que surjam.

O que os reguladores esperam das Gestoras em ASG?

Em linhas gerais, CVM e ANBIMA exigem três fatores: transparência, solidez e prevenção.

A regulação e a autorregulação passaram a priorizar princípios em vez de checklists engessados, o que amplia o espaço de atuação das Gestoras e, por consequência, também eleva seu nível de responsabilidades.

CVM

A CVM, por exemplo, implementou normas pioneiras de reporte de sustentabilidade. 

A Resolução CVM 59/2021 alterou o Formulário de Referência das companhias abertas para incluir informações ESG (inclusive questões climáticas e de diversidade) sob uma abordagem “pratique ou explique” (do inglês, comply or explain). 

Mais recentemente, em 2023, a CVM deu um passo além ao adotar os padrões internacionais ISSB (International Sustainability Standards Board). A Resolução CVM 193/2023 tornou o Brasil o primeiro país a incorporar as normas de divulgação IFRS S1 e S2 ao exigir que companhias abertas, fundos de investimento e securitizadoras preparem relatórios de sustentabilidade com padrão global. 

O objetivo declarado da Autarquia é elevar a transparência, confiabilidade e comparabilidade das informações ASG, especialmente sobre riscos climáticos e sociais que afetem as entidades. 

Além disso, a Resolução CVM nº 30/21 exige que distribuidores e consultores de valores mobiliários verifiquem a adequação de produtos, serviços e operações aos objetivos e conhecimento dos clientes. Com a inserção de produtos ASG, o Ofício Circular Conjunto CVM/SIN/SMI 1/2023 define que fatores ASG também devem ser considerados na análise de adequação em suitability. 

ANBIMA

No âmbito autorregulatório, a ANBIMA também estabelece critérios próprios. Desde janeiro de 2022, o Código de Administração de Recursos de Terceiros obriga as instituições a identificar adequadamente fundos com mandato 100% sustentável, rotulando-os com o sufixo “IS” (Investimento Sustentável)

Para merecer o selo IS, nenhum investimento do fundo pode comprometer seu objetivo sustentável, e a Gestora deve definir e divulgar a estratégia, metodologia e dados que sustentam a gestão da carteira, realizando diligência e monitoramento contínuos dos objetivos ASG

Também exige-se uma política formal de integração ASG, uma estrutura de governança dedicada às questões de sustentabilidade e divulgação periódica ao público sobre essa política. Em outras palavras, todos os requisitos demandam documentos, processos e controles bem definidos.

A abordagem regulatória brasileira estabelece princípios orientadores e exige transparência sobre o cumprimento desses por parte de cada Gestora. Portanto, a expectativa é inequívoca: coerência entre o discurso e a prática, com dados passíveis de auditoria, e comunicação responsável para evitar que os investidores sejam induzidos a erro, como veremos a seguir.

Afinal, o que o mercado e os investidores esperam das Gestoras?

Investidores esperam coerência entre a estratégia e a execução, com resultados comprováveis; o mercado distingue rapidamente quem incorpora ASG de verdade e quem apenas faz branding

Além do mais, muitos alocadores de recursos também já incluem, em seus processos de seleção de gestores, perguntas e critérios específicos de ESG: verificar se a gestora possui uma política ASG consistente, se é signatária de iniciativas internacionais, qual o grau de integração ESG nos processos de investimento, como exerce stewardship (voto e engajamento) e se consegue reportar resultados de forma transparente.

Para fundos rotulados como “verdes” ou “sustentáveis”, a cobrança é ainda maior:

  • setores excluídos devem ser especificados;
  • critérios de elegibilidade precisam estar documentados; e
  • métricas de impacto devem aparecer nos relatórios.

Investidores especializados costumam analisar relatórios e até holdings de fundos para checar essa aderência e há uma expectativa por uma comunicação mais madura. Em vez de utilizar frases vagas, é recomendável apresentar dados quantificáveis. Por exemplo, a porcentagem de redução de emissões nas empresas investidas, o rating médio ESG do portfólio, o número de companhias engajadas em determinada temática, entre outros. 

É fundamental também reconhecer os desafios e detalhar as ações implementadas quando um objetivo ESG não está progredindo conforme o esperado.

Em contrapartida, quando a gestora demonstra seriedade, por exemplo, submetendo-se voluntariamente a verificações independentes, obtendo certificações ou selos de sustentabilidade reconhecidos, ou divulgando falhas junto com planos de melhoria, ela ganha credibilidade e preferência à longo prazo. 

Capital Paciente

O conceito de “Capital Paciente” refere-se a investidores conscientes, que valorizam a agenda sustentável e se dispõem a manter posições por horizontes mais longos, desde que confiem que a gestora está alinhada aos seus princípios. 

Nesse contexto, o mercado não se satisfaz apenas com boas intenções: exige resultados concretos e prestação de contas.

Gestoras capazes de combinar desempenho financeiro consistente com impacto socioambiental comprovado vêm ganhando destaque e atraindo novos fluxos. Já aquelas que se mostram incoerentes entre discurso e prática enfrentam resgates, perda de credibilidade e danos reputacionais.

Greenwashing: um dos riscos mais preocupantes

Ogreenwashing” é um dos riscos mais críticos para as Gestoras por comprometer a confiança do mercado. 

Ocorre quando uma empresa ou fundo divulga afirmações enganosas, exageradas ou não comprovadas sobre suas práticas ou credenciais socioambientais

Trata-se, em essência, de apresentar uma percepção de sustentabilidade que não corresponde à realidade operacional ou ao processo efetivo de investimento.

Para investidores e reguladores, esse é o cenário mais nocivo: além de distorcer a alocação de capital, o greenwashing prejudica a credibilidade da agenda ASG como um todo. 

Diante desse contexto, cabe às gestoras adotar uma postura proativa, estruturada e tecnicamente rigorosa na validação de informações ASG. Entre as boas práticas recomendadas, destacam-se:

Critérios verificáveis

Políticas, materiais comerciais e documentos regulatórios devem basear-se em critérios ASG objetivos, mensuráveis e aplicáveis. As regras definidas devem ser sistematicamente observadas e passíveis de comprovação.

Evidências

Toda informação ASG divulgada ao mercado precisa estar fundamentada em análises internas, relatórios técnicos, pesquisas ou auditorias. Antes da publicação de relatórios, lâminas ou apresentações, as áreas de compliance e riscos devem validar a consistência e integridade dos dados, para assegurar que não haja omissões ou interpretações indevidas.

Transparência 

Quando utilizados ratings internos, modelos proprietários ou metodologias específicas para avaliação de emissores, a Gestora deve divulgar, ao menos, seus princípios gerais, premissas e fatores considerados. 

Avaliação e verificação

Sempre que possível, recomenda-se buscar validações externas, como verificações de relatórios por terceiros, ratings de agências especializadas ou aderência a frameworks reconhecidos internacionalmente (como ISSB e TCFD). Essas camadas adicionais de verificação oferecem solidez e respaldo técnico às divulgações realizadas.

A adoção disciplinada dessas práticas protege a gestora contra sanções, fortalece sua reputação e preserva a confiança dos investidores. O ponto central é: se o fundo promete algo em ASG, a gestora precisa conseguir provar. Qualquer desalinhamento relevante entre narrativa e realidade tende a ser rapidamente exposto; por isso, a prevenção é sempre mais eficaz e menos onerosa do que a remediação.

Como tirar o ASG do papel: da política à execução

Estruturar um programa ASG eficaz requer integrar o tema à governança corporativa e ao compliance diário da gestora. 

A seguir, apresentamos um passo a passo prático de como levar o ASG do papel à rotina da empresa:

  1. Definir objetivos e prioridades

Tudo começa com o alinhamento de quais pilares de sustentabilidade são mais materiais para o negócio e para os investidores.

Realize uma análise, se possível, para identificar os temas ASG de maior impacto e relevância no contexto da gestora (ex.: mudanças climáticas, direitos humanos, diversidade, etc.). 

Com isso, estabeleça metas realistas que pretende alcançar (p.ex.: neutralizar emissões próprias até 2030, elevar a nota de governança das investidas, etc.). Esse direcionamento top-down é o primeiro passo para orientar as próximas etapas.

  1. Formalizar políticas e governança

Desenvolva uma Política ASG, documento que descreva os compromissos assumidos, critérios de investimento responsável adotados e diretrizes de atuação (incluindo prevenção de riscos socioambientais e corrupção). 

Em paralelo, crie uma estrutura de governança dedicada: muitas Gestoras instituem um Comitê ESG interno, envolvendo diferentes áreas (gestão, risco, compliance, RH, etc). 

Esse comitê se reúne periodicamente para supervisionar a implementação da política, analisar novos desafios e oportunidades ASG e garantir que o tema tenha voz nas decisões estratégicas. Também é importante definir responsáveis e atribuir papéis a todos os níveis.

  1. Integrar ASG aos processos de investimento e de compliance

Com a governança estabelecida, é hora de trazer o ASG para o dia a dia operacional, ao incluir critérios ASG nas diversas etapas do dia a dia. 

Na due diligence de novos investimentos (checagem de fatores como histórico ambiental e trabalhista das empresas), na seleção de ativos (aplicando filtros negativos para setores proibidos, ou positivos para empresas best-in-class em sustentabilidade), e na gestão contínua da carteira (monitorando indicadores ASG das investidas e engajando com suas administrações para melhoria contínua). 

Ferramentas práticas ajudam: utilizar questionários ASG para empresas, serviços de research e ratings ESG, listas de alerta (watchlists de controvérsias) e sistemas de red flags que sinalizem riscos emergentes. 

No âmbito do compliance, adapte códigos de conduta, políticas de risco e procedimentos de controle para abarcar os tópicos ASG relevantes

Por exemplo:

  • inclua riscos ambientais e de direitos humanos no mapa de riscos da Gestora;
  • atualize procedimentos de seleção de fornecedores exigindo cláusulas socioambientais; 
  • avalie parceiros e distribuidores quanto a práticas sustentáveis;
  • mantenha atas das reuniões do comitê ESG, relatórios de análise ESG de cada ativo;
  • registros de votos em assembleias alinhados à política ASG;
  • etc.

  1. Monitorar, medir e reportar

Assim como qualquer programa de compliance, o ASG precisa de controles e mensuração. 

Defina KPIs (indicadores-chave) para acompanhar o desempenho, tanto internos quanto dos fundos. Implemente rotina de revisão desses indicadores pelo comitê e identifique desvios com ações corretivas quando necessário.

 Além disso, estabeleça processos de auditoria interna periódicos focados em ASG, para verificar se políticas estão sendo seguidas de fato. 

Já em reporting, seja transparente: elabore relatórios periódicos aos cotistas detalhando os resultados ASG dos fundos e um relatório institucional de sustentabilidade da Gestora, se for o caso. 

  1. Revisar e melhorar continuamente

A temática ESG evolui rápido. Sabemos que novas regulações, padrões e expectativas surgem direto. Portanto, a Gestora deve encarar seu programa ASG como algo dinâmico

Agende revisões anuais da Política ASG e das estratégias adotadas e incorpore aprendizados obtidos e feedbacks de stakeholders. 

Caso surja uma diretriz nova da CVM ou da ANBIMA, adapte procedimentos de imediato; se investidores começam a demandar algum indicador específico, avalie incluí-lo nos relatórios. 

Seguindo esses passos, a empresa consolida uma governança ASG robusta, com o tema permeando desde a alta administração até as operações diárias. 

Fundos IS e diretrizes ANBIMA: o que importa na prática?

Para enquadrar fundos como sustentáveis (categoria IS) e cumprir as diretrizes ANBIMA, as Gestoras precisam alinhar mandatos, governança e documentação imediatamente. 

Como citamos anteriormente no artigo, desde 2022 todos os fundos de investimento cujo objetivo declarado seja 100% sustentável devem ostentar o sufixo “IS” no nome, indicando Investimento Sustentável.

Essa obrigação vale tanto para fundos de ações quanto de renda fixa ou outras classes. O escopo foi ampliado para organizar o mercado que até então tinha muitos fundos se autodenominando “verdes” ou “ESG” sem critério padronizado. 

Quais são os pilares dessas diretrizes? 

Um resumo do que já vimos até agora:

  • Objetivo sustentável explícito: O fundo IS deve ter em seu regulamento e materiais que seu objetivo principal é gerar impactos ambientais e/ou sociais positivos, além de retorno financeiro. Nenhuma posição da carteira pode contradizer esse propósito.

  • Estratégia e metodologia divulgadas: A instituição precisa definir e tornar pública a estratégia ASG do fundo, incluindo a metodologia utilizada para selecionar investimentos sustentáveis e os dados que embasam as decisões. Se o fundo usa um índice de referência, este índice também deve ser alinhado ao compromisso sustentável do produto.

  • Diligência e monitoramento contínuos: Espera-se que a organização execute processos rigorosos de diligência nas empresas ou ativos para assegurar que atendem aos critérios ASG do fundo, além de monitoramento frequente para verificar o cumprimento dos objetivos sustentáveis ao longo do tempo.

  • Política e governança ASG na Gestora: A casa deve adotar políticas formais de integração ASG, treinar sua equipe e manter uma estrutura de governança (como comitês ou responsáveis dedicados) voltada às questões sustentáveis.

  • Transparência ao mercado: Devem ser divulgadas informações atualizadas sobre a política de investimento sustentável do fundo e sobre a governança que o sustenta. Materiais de venda, lâminas e relatórios precisam trazer de forma destacada as características ASG. Fundos IS, em particular, devem deixar claro ao investidor que aquele produto busca impacto socioambiental positivo e quais compromissos assumiu.

Para os fundos que integram fatores ESG na gestão, mas não têm sustentabilidade como objetivo principal (ou seja, não se qualificam como IS), a ANBIMA permite uma sinalização diferente

Esses produtos podem usar a frase “este fundo integra questões ASG em sua gestão” nos materiais de divulgação, mas não podem utilizar o sufixo IS

Ainda assim, há requisitos a cumprir. Mesmo sem objetivo 100% sustentável, tais fundos e suas Gestoras precisam demonstrar compromisso, diligência e transparência proporcionais. 

Como se preparar na prática? 

Em primeiro lugar, revisar todos os seus fundos existentes que tenham rótulos ou estratégias sustentáveis. 

Aqueles que realmente têm mandato focado em impacto devem ser ajustados para atender aos critérios e então solicitar à ANBIMA o acréscimo do “IS” no nome (se ainda não o fizeram). 

Envolve possivelmente alterar regulamentos de fundos, incluir o objetivo sustentável de forma explícita e adequar materiais de marketing

Durante o período de adaptação inicial dado pela ANBIMA (12 meses contados a partir de janeiro de 2022), muitas Gestoras fizeram exatamente isso. 

Hoje, passado esse prazo, um fundo que não cumpra os critérios não pode se promover como “sustentável”. Então, a Gestora deve descontinuar qualquer linguagem ESG em produtos que não estejam adequados, sob pena de responsabilidade por informação irregular.

Em seguida, é preciso implementar ou aprimorar a governança ASG interna para sustentar esses fundos

A documentação é peça-chave: é preciso manter arquivados os relatórios de diligência ASG que justificam cada investimento do fundo sustentável, os pareceres do comitê, as métricas de acompanhamento de impacto, entre outros. Assim, em eventuais auditorias da própria ANBIMA ou questionamentos de investidores, estará evidente que há substância por trás do rótulo IS.

Por último, mas não menos importante, garanta consistência absoluta entre o mandato, o material distribuído ao mercado e a prática efetiva

Gestoras que fazem o dever de casa ao estruturar seus fundos IS estarão não só em conformidade, mas também bem posicionadas para aproveitar o crescimento desse mercado. Embora representem apenas 0,24% da indústria hoje, os produtos sustentáveis já demonstram forte expansão e interesse dos investidores.

Treinamento em ASG como peça-chave 

Em Gestoras de recursos, onde decisões de investimento e comportamentos internos têm grande impacto, todos os profissionais devem compreender os conceitos, as obrigações regulatórias e suas responsabilidades individuais dentro do programa ASG. 

Por quê?

  • times treinados identificam melhor riscos e oportunidades;
  • materiais de marketing, relatórios e posições públicas passam por um “filtro crítico” mais apurado; e
  • a cultura de ética e sustentabilidade se fortalece.

O que um bom treinamento ASG deve abranger?

  • Conceitos essenciais de ASG, explicando os pilares ambiental, social e de governança e como se aplicam ao negócio de gestão de recursos. Por exemplo, mostrar casos concretos de fatores ESG afetando valuations ou riscos de crédito;

  • obrigações regulatórias e diretrizes relevantes, como as normas da CVM (p.ex. Res. 59 e 193) e as diretrizes ANBIMA para fundos sustentáveis, de forma que todos saibam o que precisa ser cumprido e reportado;

  • riscos de greenwashing e outros riscos ASG, com destaque a sinais de alerta e consequências. Aqui, vale citar exemplos reais de empresas ou gestores penalizados, para fixar a lição de que não aderir à verdade factual traz prejuízos; e 

  • políticas internas e responsabilidades, detalhando o Programa de Compliance ASG da própria gestora, como quem faz o quê, quais canais de denúncia existem para temas socioambientais, procedimentos a seguir em due diligence, etc. 

Como causar impacto com o conteúdo?

  • estudos de caso;
  • simulações de decisões de investimento ou de comunicação; e
  • avaliação de dúvidas reais trazidas pelas equipes.

Por que usar ferramentas automatizadas?

  • gerenciar trilhas de treinamento;
  • acompanhar métricas como % de participação e desempenho nas avaliações; e
  • manter evidências organizadas para eventuais fiscalizações.

Em síntese, o treinamento em ASG é uma ferramenta estratégica que protege a gestora, aprimora processos e consolida o ASG como parte natural do trabalho de todos.

Qual é o papel do compliance na consolidação de um ASG robusto?

O compliance é o fio condutor que conecta o que a gestora promete em ASG com o que ela realmente faz e como ela consegue provar.

Ou seja, compete aos profissionais de compliance assegurar que todo o discurso se materialize em ações concretas, que estejam em conformidade com as normas e sejam passíveis de verificação.

Na prática, envolve algumas ações como:

  • revisar políticas e materiais de divulgação;
  • garantir que critérios ASG definidos são refletidos nas carteiras;
  • monitorar riscos, controles e planos de ação; e
  • coordenar treinamentos para reforçar a cultura de integridade.


Para as Gestoras, o momento de agir é agora. Revisar o programa ASG atual, identificar gaps em relação às expectativas do mercado e dos reguladores, priorizar treinamentos e promover um alinhamento interno entre equipes são passos imediatos recomendados

A evolução do cenário exige protagonismo. O compliance pode e deve liderar a transição da gestora para um patamar de excelência em ASG, onde cumprir regras não é o teto, mas sim o piso de uma atuação responsável e geradora de valor.


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Este artigo não representa opinião legal do Compliasset, tendo o propósito puramente informativo.

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