As instituições de pagamento evoluíram de coadjuvantes a protagonistas no setor financeiro brasileiro, impulsionadas pelo Pix e pela digitalização.
Com 93% dos brasileiros adotando transações instantâneas em detrimento dos meios tradicionais, nunca foi tão importante aliar tecnologia à gestão de compliance e riscos.
Este artigo explora como a inovação tecnológica pode garantir conformidade regulatória, prevenir fraudes e fortalecer a segurança nas instituições de pagamento que operam o Pix.
A revolução dos pagamentos digitais e o papel das instituições de pagamento
Nos últimos anos, o ecossistema de pagamentos no Brasil passou por uma transformação profunda. O Pix, lançado em 2020 pelo Banco Central, revolucionou a forma como realizamos transações ao permitir pagamentos instantâneos, 24 horas por dia, a baixo custo.
Essa inovação rapidamente se tornou parte do cotidiano: em 2024, as transações via Pix alcançaram 63,8 bilhões, superando em volume a soma de operações com cartão de crédito, débito, boletos, TED, pré-pagos e cheques.
Segundo a pesquisa “Pagamentos em Transformação: do Dinheiro ao Código”, realizada pelo Google, praticamente 93% dos brasileiros já utilizaram o Pix, que respondeu por 47% de todas as transações de pagamento no país. Em contrapartida, o uso de dinheiro em espécie despencou e a parcela da população que usa dinheiro físico com frequência caiu de 43% em 2019 para apenas 6% em 2024.
Essa adoção maciça reflete não apenas a conveniência do Pix, mas também o avanço tecnológico e a maior inclusão financeira.
Entre 2022 e 2024, a proporção de brasileiros que acessam serviços bancários pela internet saltou de 61% para 71,2% da população, um crescimento de 11,1 pontos percentuais atribuído em parte à popularização do Pix, o que significa 22 milhões de novos usuários de banking digital em dois anos, alcançando 119,6 milhões de pessoas em 2024. Essas informações são provenientes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), conduzida pelo IBGE.
As instituições de pagamento, fintechs e outras empresas não bancárias autorizadas a oferecer serviços de pagamento, tiveram papel central nessa evolução. Anteriormente operando à margem do sistema financeiro tradicional, atualmente essas empresas se destacam em inovação.
Essa transformação trouxe experiências de pagamento mais fluidas e integradas em múltiplas plataformas, alinhadas à busca por transações “sem atrito”. Contudo, ela também ampliou as responsabilidades dessas instituições.
O Pix deixou de ser apenas uma ferramenta transacional para se tornar parte fundamental da infraestrutura financeira do país. Consequentemente, as instituições de pagamento que operam o Pix estão sob holofotes tecnológicos e regulatórios: espera-se delas excelência operacional, segurança nas transações e aderência irrestrita às normas vigentes.
Permanecer atualizado sobre inovações e mudanças legislativas no setor de pagamentos não é opcional, é um imperativo para manter a competitividade e a conformidade em um mercado em rápida evolução.
Desafios de compliance e riscos no universo do Pix
A mesma agilidade e alcance do Pix que impulsionam os negócios das instituições de pagamento também apresentam desafios significativos de compliance e gestão de riscos.
A instantaneidade das transações e o enorme volume de operações aumentam a exposição a fraudes, lavagem de dinheiro, ataques cibernéticos e outros riscos operacionais.
Reguladores, cientes disso, têm imposto obrigações cada vez mais rigorosas para garantir a segurança do sistema e a proteção dos usuários finais. Para as instituições de pagamento, cumprir essas exigências não é apenas questão de evitar penalidades, mas é fundamental para preservar a integridade da organização e a confiança do mercado.
Um dos grandes riscos emergentes é a fraude via Pix. Criminosos aproveitam a rapidez das transferências para aplicar golpes e dificultar o rastreamento.
Os números recentes são alarmantes: em 2024, foram registrados pelo Banco Central (BC) 4,7 milhões de casos de fraudes envolvendo o Pix, que resultaram em R$ 6,5 bilhões em valores desviados. Esse volume representa um aumento de aproximadamente 80% em relação ao ano anterior, evidenciando como os golpistas sofisticaram suas táticas na mesma medida em que o Pix se popularizou.
Apesar dos mecanismos de devolução implementados pelo BC, apenas cerca de 7% dos valores fraudados conseguiram ser ressarcidos às vítimas. Os criminosos frequentemente utilizam contas “laranjas” e esvaziam os recursos assim que recebidos, tornando difícil recuperar o dinheiro. Em 86% dos pedidos de reembolso negados, a causa foi a falta de saldo nas contas de destino.
Diante desse cenário, o Banco Central reforçou a necessidade de controles rigorosos: já foram devolvidos mais de R$ 1 bilhão aos clientes lesados por golpes, graças ao chamado Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix, e novas medidas de segurança vêm sendo implementadas para deter atividades ilícitas.
Paralelamente, as obrigações regulatórias para os participantes do Pix tornaram-se mais abrangentes. Entre as exigências específicas impostas às instituições de pagamento que operam no arranjo do Pix, destacam-se:
- Rotinas de auditoria: Implementar auditorias periódicas para verificar a aderência às regras do Pix e a eficácia dos controles internos. As instituições participantes indiretas (contratantes) são fiscalizadas pelo participante responsável, que deve garantir a conformidade do contratante, inclusive por meio de auditorias independentes, conforme diretriz do Banco Central.
- Informes ao Banco Central: Prestar informações regulares ao regulador sobre as operações realizadas via Pix, incluindo dados cadastrais, estatísticas de transações e comunicações de incidentes. Por exemplo, desde 2023 os participantes devem reportar semestralmente os clientes identificados como envolvidos em fraudes, dentre outras obrigações.
- Consulta de chaves Pix para segurança: Adotar procedimentos de verificação das informações vinculadas às chaves Pix. Uma atualização normativa de 2025 passou a exigir que, ao registrar uma chave Pix, a instituição valide o nome do usuário associado àquela chave conforme CPF/CNPJ na Receita Federal e impeça o cadastro de chaves por clientes com registro irregular. Além disso, instituições devem consultar bases externas para detectar irregularidades graves (ex.: CPF suspenso ou falecido) e tomar medidas como recusar abertura de conta ou mesmo excluir chaves Pix atreladas a indícios de fraude ou cadastros inconsistentes.
- Estrutura de gerenciamento de riscos: Manter uma estrutura sólida de gestão de riscos corporativos, englobando identificação, avaliação, mitigação e monitoramento de riscos operacionais, de crédito, liquidez, cibernéticos, entre outros pertinentes. Essa estrutura deve ser proporcional ao porte da instituição e às atividades desempenhadas, assegurando que os riscos do negócio (inclusive os trazidos pelo Pix) sejam continuamente gerenciados.
- Política de segurança cibernética: Implementar e manter uma política de segurança da informação e cibersegurança abrangente, conforme exigido pelo Banco Central. Desde 2021, normativos como a Resolução BCB nº 85 determinam que as instituições de pagamento adotem diretrizes formais de segurança cibernética, incluindo controles para proteção de dados, prevenção a incidentes, planos de resposta a ataques e restrições na contratação de serviços de nuvem. Dado o aumento de golpes digitais, essa política é necessária para resguardar o ambiente do Pix contra invasões, vazamentos de dados sensíveis e sequestro de contas.
- Política de PLD/FT: Estabelecer uma Política de Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo em conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.613/1998, entre outras). Essa política deve definir procedimentos de conheça-seu-cliente (KYC), diligência reforçada para situações de maior risco, regras de retenção de registros e comunicação de operações suspeitas ao COAF. No contexto do Pix, que permite transferências instantâneas, a vigilância contra movimentações atípicas torna-se ainda mais essencial para evitar que o sistema seja usado para fins ilícitos. Adicionalmente, é necessária também a realização periódica de uma Avaliação interna de riscos de PLD/FT, conforme exigido pela regulamentação (Circular Bacen nº 3.978/2020).
- Classificação e qualificação de clientes: Realizar a devida classificação de risco dos clientes e a qualificação cadastral adequada, que envolve segmentar os usuários em categorias de risco (baixo, médio, alto) considerando fatores como perfil financeiro, atividades econômicas e histórico transacional. Instituições de pagamento precisam, por regulamentação, qualificar os clientes na entrada e ao longo do relacionamento, atualizando dados periodicamente e garantindo que clientes de maior risco sejam submetidos a controles adicionais.
- Monitoramento e análise de operações suspeitas: Desenvolver manuais e procedimentos internos para monitorar transações e selecionar aquelas potencialmente suspeitas para análise detalhada. No caso do Pix, isso significa monitoramento em tempo real ou quase em tempo real de volumes, frequência e padrões de transação incompatíveis com o perfil do cliente. Uma vez identificada uma operação atípica, a instituição deve ter capacidade de analisá-la, registrar os achados e, se necessário, reportar a operação como suspeita às autoridades competentes. Ferramentas tecnológicas de análise de dados e inteligência artificial podem ser grandes aliadas nessa triagem de milhões de transações em busca de anomalias.
Cumprir essa série extensa de requisitos pode parecer oneroso, mas é indispensável para operar no sistema financeiro atual.
O Banco Central tem reforçado a fiscalização: descumprimentos das regras do Pix podem levar a advertências, multas de até R$ 100 mil, suspensões cautelares ou mesmo exclusão do participante infrator do arranjo Pix.
Em novembro de 2024, por exemplo, o BC editou a Resolução BCB nº 429/2024, que passou a exigir autorização prévia do Banco Central para praticamente todas as instituições de pagamento que queiram aderir ao Pix.
As IPs que entraram no Pix sem autorização formal agora têm prazos estabelecidos em 2025 e 2026 para obterem licença do BC, sob pena de serem desconectadas do sistema. A
lém disso, determinou-se que a partir de 2025 essas instituições sigam padrões equivalentes aos de instituições financeiras tradicionais, desde adotar a contabilidade COSIF e enviar balanços ao BC, até manter capital social mínimo de R$ 5 milhões a partir de 2026.
Tais medidas indicam o movimento do regulador: somente organizações sólidas, bem estruturadas em governança e compliance, poderão continuar participando do Pix a longo prazo.
A importância da tecnologia na gestão de compliance e prevenção de fraudes
Diante de exigências tão complexas e de riscos em escala crescente, fica evidente que a tecnologia é uma aliada para as áreas de compliance e risco nas instituições de pagamento.
Tentar atender a todas essas demandas manualmente ou com sistemas defasados não é viável, além de suscetível a erros humanos, seria ineficiente frente ao volume de operações do Pix e à velocidade com que os cenários mudam.
Incorporar soluções tecnológicas modernas permite elevar o patamar de controle, agilidade e precisão na conformidade.
A seguir, discutimos como a tecnologia pode apoiar as principais frentes de compliance e gestão de risco:
1. Monitoramento automatizado de transações e detecção de anomalias
Ferramentas avançadas de análise de dados e machine learning, demandadas pelo Banco Central, rastreiam milhares de transações Pix por segundo, identificando padrões suspeitos e rejeitando transferências atípicas ou incompatíveis com o perfil do cliente.
Com IA, o monitoramento 24/7 em tempo real, com poucos falsos positivos, aumenta as chances de bloquear fraudes antes da perda de dinheiro.
Funcionalidades como bloqueio cautelar e o Mecanismo Especial de Devolução (MED) foram viabilizadas pela evolução tecnológica dos sistemas bancários integrados ao Pix.
2. Integração de sistemas para conformidade regulatória
As instituições de pagamento precisam reportar uma série de informações ao Banco Central e outros órgãos (como COAF) regularmente. Plataformas tecnológicas ajudam a consolidar esses dados de forma confiável.
Por exemplo, sistemas de GRC (Governança, Risco e Compliance) integrados permitem centralizar registros de auditorias, controles internos, riscos identificados, incidências e ações corretivas.
A tecnologia também auxilia no cumprimento de prazos regulatórios – alertando automaticamente sobre datas-limite para envio de informes, atualizações de políticas ou treinamentos obrigatórios.
3. Fortalecimento do KYC e análise de clientes
O processo de conhecer o cliente pode ser enriquecido por tecnologia desde o momento do cadastro.
Ferramentas de onboarding digital fazem verificação automática de documentos e validação biométrica, garantindo que a abertura de conta atenda aos requisitos e identificando CPFs potencialmente problemáticos antes mesmo de serem autorizados a operar no Pix.
Além disso, soluções de score de risco combinam dados de mercado, histórico de crédito e até análises comportamentais para atribuir um risco inicial ao cliente.
Outro benefício é a integração com listas de sanções e pep (pessoas politicamente expostas): sistemas podem checar diariamente bases como a lista do Conselho de Segurança da ONU, listas nacionais de bloqueio, e marcar automaticamente cadastros que coincidam.
4. Prevenção de ciberataques e proteção de dados
Investimentos em ferramentas de segurança da informação são imprescindíveis: firewall de próxima geração, sistemas de prevenção de intrusão (IPS), autenticação multifator nos acessos internos, criptografia forte para dados sensíveis e backups regulares, para citar alguns.
Muitos ataques a clientes do Pix ocorrem via engenharia social (phishing, roubo de credenciais), portanto as instituições também implementam soluções de detecção de fraudes no endpoint.
Com fraudes cada vez mais sofisticadas, a tecnologia é a única forma de cumprir o princípio de segurança by design exigido pelos reguladores e de proteger a infraestrutura crítica do Pix contra interrupções.
5. Gestão unificada via soluções GRC
Por fim, como também citamos no item 2, tecnologias de Governança, Riscos e Compliance permitem às instituições de pagamento enxergar o panorama completo de sua conformidade.
Um software GRC centraliza documentos como políticas internas (código de conduta, manual PLD-FT, política de segurança etc.), registra a aprovação e revisões desses documentos, e notifica automaticamente quando precisam ser atualizados (por exemplo, diante de uma mudança regulatória).
Da mesma forma, riscos mapeados são catalogados e recebem tratamento (mitigar, transferir, aceitar) dentro do sistema, com histórico do que foi feito para cada risco. Esse tipo de solução traz transparência e rastreabilidade, facilitando tanto a tomada de decisão pela diretoria quanto eventuais comprovações aos supervisores.
Em um ambiente regulado, atestar a conformidade é quase tão importante quanto estar conforme.
Boas práticas de compliance para instituições de pagamento que operam o Pix
Mesmo com apoio tecnológico, a efetividade da gestão de compliance e riscos depende de estratégias bem definidas e de uma execução consistente.
Para instituições de pagamento no contexto do Pix, algumas boas práticas a serem seguidas incluem:
- Cultura de compliance e exemplo da liderança;
- Atualização e inteligência regulatória contínua frente às normas;
- Treinamentos e conscientização dos colaboradores;
- Segregação de funções e controles internos robustos;
- Planos de resposta a incidentes e continuidade de negócios; e
- Foco na experiência do cliente, com autenticação e educação contra golpes.
Pilares para um Pix seguro e eficiente
A incorporação da tecnologia na gestão de compliance e riscos deixou de ser uma vantagem competitiva para se tornar uma necessidade básica no setor de pagamentos.
À medida que o Pix e outras soluções digitais ampliam o acesso e a velocidade das transações, as instituições de pagamento precisam se equipar contra os novos tipos de ameaças e atender a regulamentos cada vez mais detalhados.
Neste artigo, vimos que a adoção de sistemas inteligentes de monitoramento, plataformas integradas de compliance, ferramentas de segurança cibernética e práticas sólidas de gestão são pilares que se reforçam mutuamente.
Os benefícios são óbvios: redução de fraudes, maior eficiência operacional, conformidade assegurada e confiança reforçada de clientes e reguladores. Em contrapartida, ignorar esses avanços pode expor a organização a perdas financeiras vultosas, sanções regulatórias e danos reputacionais difíceis de reverter.
Em suma, tecnologia e compliance andam de mãos dadas para viabilizar um ambiente de pagamentos moderno, seguro e em conformidade.
As instituições de pagamento que entenderem essa simbiose estarão mais preparadas para navegar pelas exigências do Banco Central, antecipar tendências como open finance e moedas digitais, e sobretudo para proteger seu negócio e seus clientes em um cenário de rápidas mudanças.
A jornada de implementação pode ser desafiadora, mas os resultados valem a pena: processos mais seguros, riscos controlados e a tranquilidade de operar dentro das regras, aproveitando ao máximo as oportunidades trazidas pelo Pix e pela inovação financeira.
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